quarta-feira, 22 de março de 2017

Para a história de O Tempo e o Modo.

 
 
 

 
 
 
Meu caro Clemente Rogeiro:
Pedia a sua boa atenção para o requerimento que segue. Ele se deve sobretudo à necessidade que sinto, neste especial momento que estamos a viver, de um Director seguir atentamente tudo o que se passa na revista ou no jornal que dirige e eu não tenho tempo para o fazer. Por outro lado, a minha posição neste momento em relação à vida pública portuguesa não é exactamente aquela que tinha e que é a tradicional da revista “O Tempo e o Modo” e a minha manutenção como director criava-me problemas de consciência que não quero ter,
Gostaria que no próximo número o meu nome não figurasse já pelo que lhe pedia que, na medida do possível, isto caminhasse com brevidade.
 
Creia-me, muito amigo
António Alçada Baptista
 
Colecção particular
Obrigado, Luís!
 
 
 
 

domingo, 19 de março de 2017

Le port de Lisbonne.

 
 
 
 
 
C’est un des plus beaux ports du monde; il rivalise, en dons naturels, avec celui de Constantinople et celui de Naples.
 

O Livro do Caçador.

 
 
 
 
O coração para e mais um tiro está feito, instintivamente, na direcção do vulto que nos ataca. Junto aos nossos pés abate-se um outro tigre-real com que não havíamos contado, pois, afinal, e sem que o sentíssemos, era um casal de tigres-reais que se encontrava a comer o cadáver do boi, do infeliz Babló Boto.

A Religião na URSS, por Leopold L. S. Braun.

 
 
 
 
Os comparsas do Kremlin podiam discordar em assuntos políticos, mas no que todos estavam de acordo era em atacar a religião, porque este é um ponto em que estão sempre concordes todos os membros do Partido.
 
 

O Tojo.

 
 
 
 
Arbusto vivaz, sempre verde, pode atingir 3 metros de altura. As raízes, vigorosas, muito desenvolvidas, correspondendo aproximadamente à quarta parte da planta, apresentam numeroso «cravos» bacterídeos, esbranquiçados.

sábado, 18 de março de 2017

O Nosso Lar, por Marimilia e Fernando Carlos.

 
 
 
 
 
  Todos rodearam a mesa, animadíssimos. A D. Leonilde sorriu bondosamente, levantando o olhar do grande tapete de Arraiolos em que trabalhava havia meses. Levava tempo mas, a pouco e pouco, o belo desenho característico, com os seus passarocos ingénuos e flores estilizadas, aparecia, perfeito e colorido, na linhagem grosseira.
 
 

O Sentimento Patriótico na Mulher Portuguesa, pelo Pde. Alberto Gonçalves.

 
 
 
 
 
 
Nenhuma História há donde se desprendam tantas lições de heroísmo como a nossa. Entre os muitos e maravilhosos factos que a prodigiosa História de Portugal regista em caracteres indeléveis nas suas brilhantes páginas, mercê dos quais o povo lusitano tanto se nobilitou e engrandeceu, salientam-se as acções admiráveis de abnegação e civismo cometidas pela mulher portuguesa.  

Rapariga Ideal, por Augusto Durão Alves.

 
 
 
 
 
 
 
Podes e deves amar – estavas à espera que to eu dissesse, pois não estavas? – podes e deves amar o teu noivo, se o tens, porque é necessário que ensaies desde já o teu coração naquele sentimento que há-de ser um dia a bênção e a luz do teu lar.
 

quinta-feira, 16 de março de 2017

Memórias Perdidas - 13

 
 
 

 
E cá estamos de novo com a cansativa série «Memórias Perdidas». Desta feita, Voltar a Viver, de Edgard Santos Mattos, editado pela Guimarães em 1976.
O autor escreveu estas suas memórias ao perfazer 50 anos. Uma vida que, para quem ler o livro, parece ter-se resumido – o que não é pouco – ao gozo do cosmopolitismo, patente nas mil e uma aventuras romântico-sexuais do travesso Edgard com mulheres das mais diversas nacionalidades. Mas também nos inúmeros títulos estrangeiros que o dr. Santos Mattos cita, porque os leu: literatura clássica mas também livros sobre política ou ensaios de circunstância, a propósito dos mais variados temas. Ao terminar o livro, fica-se com a sensação que o autor é enciclopédico nos campos feminino e literário, tendo de permeio uma carreira burocrática de pouco realce em instituições internacionais. Segundo parece, Marcello Caetano gostava dele, tinha apreço não pelas suas qualidades como jurista – foi um aluno mediano – mas pelos seus dotes humanos, de orador e palestrante em reuniões no estrangeiro.
Quanto ao mais, o relato de infância e juventude de um menino-família, que, devido ao divórcio dos pais, teve de mudar-se de uma moradia luxuosa para um hotel modesto. Como é evidente, narrativas da iniciação sexual com criadas e, mais tarde, com prostitutas. O estilo roça o brejeiro, quando não pior. Mas há uma tremenda autenticidade neste depoimento, nomeadamente quando Edgard Mattos refere a crueza da sentença judicial que, salomonicamente, o confiou – e à sua irmã – à guarda dos avós paternos, com a garantia de que estes iriam internar os netos em colégios de elite. «Éramos dali em diante órfãos de pais vivos». E assim lá foi o pequeno Edgard para o Colégio Vasco da Gama, considerado o melhor no seu tempo. Muitas histórias de jogos de futebol e aventuras sexuais precoces, à noite, nas camaratas. Sevícias sobre um colega efeminado, a quem chamavam Terezinha. Dali à boémia foi um passo – e a virgindade perdida num prostíbulo da Rua da Atalia, ao Bairro Alto. Depois dessa experiência, Edgard mergulhou forte e feio na vida nocturna lisboeta, sendo frequentador assíduos dos cabarets da capital. Por vezes, as noites corriam mal, como sucedeu com uma refrega que, no Clube dos Makavenkos, Edgard teve com um proxeneta. Para se resguardar de convívios interclassistas, o seu grupo decidiu criar uma tertúlia, a Academia Eufórica do Mais Um. Condição de admissão: cada novo sócio teria de pagar um almoço a todos os confrades. Como se vê, um clube exclusivo, mas não muito.     
Particularmente interessantes são as memórias do tempo da 2ª Guerra, falando o autor dos «estrategas de café» que, todas as noites, debruçados sobre mapas, à frente de uma bica ou de uma cerveja, definiam como deveria ser o avanço ou recuo das tropas do Eixo contra os Aliados, e vice-versa, numa espécie de ameno Sporting-Benfica em versão militarista só permitido pela neutralidade que o país vivia. No dia da vitória, uma coluna de manifestantes desceu o Chiado, com os «esquerdistas» (sic) a darem vivas à Rússia. No Rossio, a polícia carregou sobre a multidão, onde se encontrava o jovem Edgard, que deu um encontrão num empregado da Pastelaria Suíça e se  escapuliu a correr para a Praça da Figueira.
O pós-guerra foi um tempo eufórico, segundo nos conta Edgard, que na altura frequentava uma boîte instalada nas furnas lagostineiras da estrada do Guincho, onde uma noite assevera ter dançado com… Agatha Christie – e quem somos nós para duvidar de Edgard? Acrediatmos que conheceu bem Juan Carlos, nas pândegas que teve com o jovem príncipe, na recordação das violências cometidas por dois grupos boémios: um, o dos Mascarenhas, capitaneado pelo marquês de Fronteira; outro, ligado à forcadagem, liderado por Salvação Barreto. Dizia-se que quando entravam num dancing ou numa boîte pagavam antecipadamente uns valentes contos de réis, pois sabiam que a mobília e os adereços iriam acabar desfeitos em pedaços.
O livro tem este registo algo previsível, com o autor a confessar, comovido, o orgulho que tinha nos seus quatro filhos. «O meu casamento (…) foi um êxito quanto ao objectivo principal do matrimónio: o da procriação». Pelo meio, mais histórias de pancadrias com chulos (no Café Luso, por exemplo), que terminavam com Edgard sendo levado em braços rumo à sua casa de quinze divisões na Avenida da Liberdade (rectius, a casa era da sua avó). Mais tarde, casou – mas não assentou. Acabaria por separar-se da mãe dos seus quatro filhos, já que à época, por força da Concordata de 1940, o divórcio era proscrito. Um pormenor curiosíssimo, contado a destempo: Edgard foi colega, na Faculdade de Direito, do filho de Dino Grandi, um dos próceres do fascismo italiano que tivera a ousadia de erguer a voz contra Mussolini e, por isso, acabara exilado numa casa em Alfama. Todavia, e ao contrário do que propalavam as más-línguas, Grandi não vivia na miséria; pelo contrário, o filho fazia-se deslocar num esbelto carro de sport até à Faculdade de Direito. Além de refugiados de renome, uma arquitecta neozelandesa que teimava em usar bikini nas ocidentais praias lusitanas. Acabou por vencer a querela com variados cabos-de-mar, secundada pelo grupo banhista de Edgard, que na Praia Grande utilizava sempre e apenas, para ir ao mar, o que o autor designa por «uma trousse em vez de calção de comprimento de perna regulamentado».
Madrid, o destino seguinte. E, naturalmente, o mítico cabaré Pasapoga. «Dividindo o tempo entre burguesas e meretrizes éramos uns animais desavergonhados!». Pois eram. Depois disso, o mundo, em missões diplomáticas na Suíça e noutros lugares. O autor desfia os nomes dos seus empregados de mesa favoritos: o Hugo, do Hotel Polana, em Lourenço Marques; o Rodrigues, do Hotel Mundial, antigo serviçal de Gulbenkian; o inesquecível Baptista, do restaurante La Perle du Lac, em Genebra. A Suíça será o seu destino de eleição, pelas mais variadas razões. «Eu julgava que o meu interesse pelo strip-tease tinha desaparecido com as minhas viagens de jovem a Paris mas em Genebra, no Bataclan e por causa de uma eurasiana, tornei-me novamente interessado no espectáculo da nudez». Envolvendo-se com uma rapariga em terras helvéticas, Edgard Santos Mattos deixa cair o véu, desnudando a sua personalidade. A páginas tantas, fala do «atractivo sexual que o homem de sociedade ou o intelectual sente irresistivelmente por uma mulher de inferior condição social». Como se não bastasse, acrescenta: «todos nós conhecemos casos em que a atracção entre um homem e uma mulher se manifesta de níveis sociais diferentes se manifesta, de forma intensa, por vezes, incontrolável».
Voltar a Viver, memórias de um homem incontrolável. Publicadas em 1976, a visão do mundo de um «homem de sociedade», com pretensões intelectuais mas que não perdia o sentido das distâncias de classe, ou falta dela.
 
António Araújo
 
 
 
 

quarta-feira, 15 de março de 2017

Memórias Perdidas - 12



 
 
 
         É um livro singular. E, confesso, julgando que conhecia tudo quanto se havia escrito sobre a PIDE/DGS, ignorava por completo este Cela Sem Número, de Arnaldo Pinto. Não são memórias de longo curso, mas valem como tal. É o «diário» das 38 jornadas que o autor passou encarcerado na delegação da PIDE do Porto, entre Janeiro e Fevereiro de 1970. O mais curioso de tudo é que o livro seria publicado ainda antes do 25 de Abril – mais precisamente, em 1972, no Porto –, juntando-se à numerosa bibliografia de Arnaldo Pinto, onde avultam títulos com nomes fantásticos, tais como o ambicioso Maior que o Destino, o desesperado As Portas do Abismo, o comercialão 20 Contos por 15 Escudos, o tenebroso No Mundo das Trevas ou o sempre prático Guia Turístico do Portugal Continental. Isto para não falarmos, claro, da distopia bíblica Julgamento de Judas no Ano 3.000.
         Arnaldo Pinto esteve preso ou detido na delegação do Porto da polícia política sob a acusação, ou suspeita, de prática do crime de auxílio à emigração clandestina. Ou seja, não era, em sentido estrito, um «criminoso político», um oposicionista declarado ao regime, sendo essa, porventura, a razão pela qual estas suas memórias do cárcere não são muito conhecidas.
         Num estilo gongórico, pejado de floreados e ornamentos, Arnaldo Pinto descreve pari passu os seus dias de cela. Fá-lo com uma candura tal, digamos assim, que chega a ser desarmante – e até, por vezes, digno de sorriso. Na primeira linha do seu diário relativo a 22 de Janeiro de 1970, uma quarta-feira, escreve, do fundo dos calabouços: «Dia sem interesse prático». Depois, acumulam-se em camadas sobrepostas referências eruditas ao alcance de todos, alusões aos infernos de Dante ou às pinturas de Bosch, recordações do dia em que é preso, no local de trabalho. «Este dia 19 de Janeiro de 1970 foi, para a grande maioria das gentes deste pobre Universo, um dia igual a qualquer outra segunda-feira do ano». No Universo – e, em particular, no sistema solar – o dia não foi assim para um ser terráqueo: Arnaldo Pinto, autor de Plano Inclinado, entre outras obras. Foi esse o dia em que os agentes da PIDE/DGS o detiveram e, depois de o deterem, lhe disseram que estava preso. «A partir do momento de se ouvir a frase terrível do – “está preso” – as coisas mudam substancialmente e quase por encanto».
         Logo de seguida, perguntaram-lhe o que queria almoçar. «Escolhi, como era lógico, a coisa mais simples, um bife». Sempre inquisidor, o agente da DGS pergunta: «– Com batatas fritas?». «– Sim, pode ser», condescendeu Arnaldo. Não satisfeito, o agente avança para o sector das bebidas: «– E para beber? Vinho maduro?». Astuto, o autor-recluso optou pela cerveja. Apareceu então em cena «um empregado jovem do restaurante oficial fornecedor das refeições», ou seja, do estabelecimento comercial de restauração que, oficial ou oficiosamente, alimentava funcionários, agentes e demais pessoal maior e menor que se encontrasse na delegação portuense da Direcção Geral de Segurança. Na altura, para passar o tempo, o espírito de Arnaldo vagueia por destinos exóticos – Nova Zelândia, Tailândia, Rio De Janeiro – até aterrar de súbito na realidade dura e crua de uma cela com duas camas de ferro sobrepostas (um beliche?) e um balde. «– O balde é para as suas necessidades».
         Arnaldo Pinto passou 38 dias na prisão, onde não foi torturado e podia receber a visita da família. Podia até requisitar ao servente «o que quisesse», mais precisamente, maços de cigarros, um bloco de apontamentos, papel de carta e uma esferográfica. Arnaldo Pinto pediu tudo quanto tinha direito, incluindo um maço da marca Monserrate. Não estamos, de modo algum, perante um «caso típico» de preso da PIDE/DGS. Até por isso, este Cela Sem Número é um livro singular, que merece registo e nota nesta rubrica memórias perdidas.
 
António Araújo
 
 
 

terça-feira, 14 de março de 2017

As pombas do Bombarral.


Por causa de um texto que escrevi para o Público – e que mereceu uma contundente mas sempre elevada crítica do meu amigo Vasco Barreto – uma outra pessoa que faz o favor de ser meu amigo, o Professor manuel Sobrinho Simões, falou-me de um curiosíssimo episódio ocorrido na vila do Bombarral.
Corria o ano de 1946, Portugal celebrava o terceiro centenário da sua Consagração a Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Organizou-se um encontro em Lisboa da imagem oriunda de Vila Viçosa e da sua congénere proveniente de Fátima.
À passagem pelo Bombarral da imagem de Nossa Senhora de Fátima, a 1 de Dezembro de 1946, a Srª D. Maria Emília Coimbra e sua filha Teresa lembraram-se de lançar pombas brancas na direcção dos céus. Foram essas pombas, sabe-se lá porquê, anichar-se aos pés da imagem da Virgem de Fátima, e aí prosseguiram até Lisboa. No trajecto, outras pombas se juntaram, num agrupamento que à época foi tido por milagroso mas que, obviamente, não passa de uma curiosidade histórica. Saúde-se, pois, a Câmara Municipal do Bombarral que, em 2016, promoveu a edição de um encantador livrinho da autoria de Jorge Jerónimo, com rica iconografia, onde se relata ao pormenor esta pequena história. Pelo seu interesse do ponto de vista etnográfico, para a compreensão da história local e, sobretudo, para o entendimento da vivência da religiosidade em tempos de Cerejeira e de Salazar, é uma pequena-grande maravilha. Parabéns à Câmara do Bombarral – e, naturalmente, muito obrigado a Manuel Sobrinho Simões, que me deu a conhecer esta estória. Ah, claro, e obrigado ao Vasco Barreto, pela sua inteligente crítica ao que escrevi sobre Fátima e os seus mistérios.

António Araújo
 

segunda-feira, 13 de março de 2017

Como hacer productivo un pequeño negocio, de E. Ford.







Trabalha para Ti.







         As avarias e as dificuldades de funcionamento devidas aos gasogénios são sempre muito simples, porque toda a aparelhagem não tem órgãos complicados ou delicados.
         Por outro lado, as pequenas diferenças existentes entre os diversos sistemas, permitem dar indicações gerais a este respeito.
         Naturalmente não será possível prever todos os casos, nem isto é um livro para especialistas.


domingo, 12 de março de 2017

Um pirata na Argélia.







Argel, 26 de Julho de 2016
 
De José Manuel Fernandes, No Observador (Macroscópio) de hoje
Uma redacção de uma revista satírica. Um clube nocturno. Um aeroporto. Uma avenida cheia de gente. Uma festa de Verão. E agora uma igreja. Nestas terríveis semanas que estamos a viver acordamos a perguntar “Onde vai ser hoje?”, adormecemos sem saber em que lugar aquela noite se pode transformar num pesadelo. E o pior é que, para além dos que propõem leituras simples que quase sempre são erradas, não sabemos o que pensar. E o pior é que temos a percepção de que as autoridades, os nossos eleitos, os nossos políticos, não sabem o que fazer e ainda menos o que dizer, pois quase só proferem inanidades que nada adiantam…”
 
No fim do século XIX, princípio do XX, com inspiração lateral de movimentos vários – socialista, marxistas, anarquistas, carbonários, maçons, saladas ideológicas diversas – ganhou força uma corrente que se designou por nihilista (ou niilista para quem gosta de acordos ortográficos). Esta corrente que foi teorizada por filósofos e pensadores distintos, em termos brutos condena a ordem existente, não procurando directamente substituí-la por nenhuma outra. Daí no fundo o seu significado etimológico buscado na palavra latina nihil, que significa "nada”.
Se nos lembramos um pouco, com base neste conceito – destruição da ordem existente – nesses tempos representada pelo poder instituído – Casas Reinantes, Presidentes – deram-se em relativamente poucos anos uma série de assassinatos célebres: Alexandre II da Rússia em 1881, Presidente Francês Sadi Carnot em 1894, Stefan Stabolov, 1º ministro búlgaro em 1895, Antonio Canovas del Castillo, 1º ministro espanhol em 1897, a Imperatriz da Áustria (Sissi) em 1898, Umberto I, Rei de Italia em 1900, Alexandre I da Sérvia e a Rainha Draga, sua mulher, em 1903, Rei D. Carlos I de Portugal e o Príncipe Herdeiro, Luís-Filipe, em 1908, Primeiro-Ministro Russo, Piotr Stolipyn, em 1911, Rei Jorge I da Grécia em 1913, Arquiduque Francisco Ferdinando da Áustria-Hungria e sua mulher em 1914, Jean Jaurès, socialista francês no mesmo ano. Para citar os mais conhecidos.
Todos estes assassinatos foram perpetrados, em grande medida, por grupos autónomos, ou lobos solitários, sem ligação nenhuma entre eles, com excepção desta ideia de luta contra uma ordem existente.
No fim triunfaram os assassinos? Pode-se dizer que em parte sim.




 A sucessão de perturbações, de que estes assassinatos foram a espoleta ou aberração, conduziu como consequência principal à 1ª guerra mundial, à mudança de regimes (Portugal é um exemplo), ao fim de Impérios, à proliferação de novos Países sobre ruína de outros.
Poder-se-ia continuar com outos exemplos mas o paralelo histórico que queria estabelecer e acho significativo, está feito.
O problema a que estamos a assistir é muito semelhante: não há ligação física, sequer de conhecimento, entre os autores dos vários atentados. Há uma constante ideológica: fazer mal à maneira de estar ocidental. E todos os lobos solitários ou células mais ou menos organizadas são como microorganismos cancerígenos que despertam e atacam. Estão dentro de nós adormecidos e um dia acordam.
O remédio é semelhante ao do cancro: prevenção, verificação do que o pode despoletar (amianto, tabaco…) e uma vez descoberto erradicação imediata por todos os meios.





Sem me querer alongar muito vou falar da prevenção.
O meu Senhorio aqui na Argélia, muçulmano, um velhote espevitado que tem oitenta anos que parecem sessenta, viajado, com filhos empresários em França, bem relacionado, toda a vida tendo trabalhado para a Shell e ganho muito dinheiro com isso, fala muito comigo. Representa uma síntese conseguida dos dois mundos, muçulmano e ocidental.
E é inevitável que todos estes acontecimentos sejam motivo de conversa. E ouço as suas opiniões sem as comentar.
Hoje, como de costume, veio ter comigo, sentou-se dez minutos na sala de reuniões e mostrou-me o que eu já desconfiava.
Vou contá-lo por minhas palavras e pelo que senti à medida que ele falava.
Imaginem países que pela sua própria ordem natural, leis, costumes, entendem que, mais importante que as leis dos homens, são as leis Divinas plasmadas num livrinho que é tido como sagrado (permitindo embora interpretação humana disfarçada sobre a forma de mandamento religioso – a fatwa). O enquadramento social, a maneira de pensar de se comportar são assim vistos como produto de um ensinamento que está para lá deste Mundo, sendo assim superior a este. Para garantir que assim é a mesquita, a madrassa, garantem a correcção ideológica e o apoio social. O policiamento ideológico, social, sociológico é intrínseco a todo este processo.
Depois a relação familiar é entendida como dominante a qualquer outra. As lealdades familiares são fortíssimas. A vida é feita em conjunto, numa promiscuidade estranha com uma separação de sexos activa.
Percebem a mente fechada que isto proporciona?




Agora, exterior a todo este mundo, temos o Ocidente iconoclasta, libertador, cultivando galanterias, costumes individualistas, hedonismo e erotismo. Que não é só de agora. Em diferentes épocas, existiu de forma diferente. Ocidente que cria em contínuo, impulsionando sempre mais e mais, o saber.
A somar a esta diferença uma persistente (e inevitável) pobreza do geral dos muçulmanos
Peguemos então num miúdo oriundo mentalmente desta cultura que não permite a evolução, mas que cresce em sociedades ocidentais, necessáriamente desintegrado em relação aos “brancos” que têm o espírito aberto.
Lembrem-se daquele vosso colega do Liceu, filho de pobre Pais operários, mal vestido, olhando com ar meio estupidificado o resto da turma e afastado do convívio dos outros. Eu tenho uma ideia do que estava comigo no 7º ano, de que nem sei o nome, e que, quando todos nós escolhíamos engenharia, medicina, ele queria ir para meteorologista.
Agora, em vez do meteorologista, ponha o filho de pais islâmicos que lhe ensinam, sem sombra de dúvida, que o mundo se divide entre muçulmanos e infiéis, que estes merecem a morte como está, indiscutívelmente, escrito no Corão (bem como o seu contrário… depende do que se lê…).
Aos 19 anos, se tiver mau fundo, a carga de ódio que arrasta em si é enorme. Se essa carga de ódio for santificada concebem a maldade que daí pode advir?
O meu Senhorio muçulmano classificava-os: “Sont des voyous monsieur!
E a seguir disse-me: O que eu vi ontem, a Michelle Obama a discursar na campanha de Hillary Clinton, seria impensável na Argélia ou em qualquer País muçulmano. Alguém aqui ser capaz de pensar acima dos seus próprios interesses e ser capaz de falar pela sociedade
Ou seja: a própria agregação é quase impossível, o que apenas faz os “terroristas” mais perigosos, porque não existe organização que se possa atacar.
E depois saiu-se com esta extraordinária: “os árabes precisam sempre de alguém como o Sadam Hussein, por quem tenho imensa admiração, que saiba mantê-los, pelo medo, pela prebenda, na ordem.”
E com isto se foi.
E eu fiquei a pensar. Já tinha tido aquela noção difusa, quando as televisões apresentaram o espectáculo pornográfico do enforcamento do ditador do Iraque, que mais que um acto de justiça, ou mesmo um crime, tudo aquilo era um erro.
Os EUA profundamente feridos, com razão, no ataque às Torres Gémeas inventaram uma guerra de vingança. O filho Bush, a milhas de Bush Pai que com ponderação respondeu à invasão do Kuweit, fez uma cena de cow-boy e atirou uma pedra para o meio de um vespeiro.
Ou seja: não aprendeu com os nihilistas! E respondeu como eles queriam que respondesse.


Peço desculpa pela extensão do que escrevo. Mas precisava de o fazer para chegar à conclusão da prevenção que advogo: só por dentro temos possibilidade de vencer a Djihad. Temos que encontrar maneiras de abrir as cabeças num trabalho de paciência. Nos Países deles, e não nos nossos, criar auxílio e escola. Evangelizá-los mesmo. Por absurdo obrigar a que, em paridade, a cada mesquita que se abra na Europa um mosteiro se instale nas várias Arábias. De forma a que os pobres, que são muitos, encontrem abrigo e amparo noutro pensar. Lutar para que nos Países muçulmanos seja levantada a proibição de “proselitismo”. Apoiar com eficácia os Cristãos do Oriente, os Coptas. Criar a sensação que o Cristianismo é uma escada no progresso.
E nós temos de deitar para o caixote do lixo da História todas as ideias de culpabilização na desgraça dos Países Pobres. Não é por culpa dos “brancos” que eles são pobres. É por sua própria e exclusiva culpa, mesmo que essa culpa seja ignorância.
 
Miguel Geraldes Cardoso